aLGuNS De MeuS SiLêNCioS...

Apenas alguns textos sobre o meu dia, o que faço, resenhas... Pensamentos soltos... Registros dos meus "sagrados" momentos de silêncio.

segunda-feira, novembro 27, 2006

VIRTUDES DE UM NADA

Estava passeando pelo Jardim Botânico de Porto Alegre e sentei num daqueles banquinhos úmidos que tem por alí... Uma borboleta sentou do meu lado e comentou que estava confusa, tinha que ajudar uma amiga e não sabia como. Eu disse que se ela me contasse um pouco sobre o que havia acontecido, quem sabe, poderia ajudar.

Ela me disse que a Elefanta - amiga íntima dela desde o jardim de infância - andava muito triste e confusa. Estava tudo muito bem na vida da Elefanta. Ela, finalmente tinha conseguido resolver suas pendências sociais, esquecer traumas da infância, reatar amizades e até dormir no escuro. Mas um dia, que nem a Elefanta, nem a Borboleta sabem que dia foi, um dia simplesmente, alguma coisa aconteceu. Algum alienígina adolescente e burro deve ter arrancado umas gramas para fazer um fuminho e, sem querer, arrancou com raíz e tudo o Dicernimento da Elefanta, que tinha se plantado em alguma realidade paralela a esta onde ficam todos os nossos sentidos internos. Então, ela nunca mais foi a mesma. Uma lacuna imensa se fez presente dentro do seu coração, depois do seu estômago, dos seus rins e aos poucos foi tomando seu corpo inteiro, até tudo virar um gigantesco oco.
E seguiu a Elefanta ouvindo seus grunhidos ecoando dentro do seu corpo vazio todos os minutos dos seus dias.
E isto estava atormentando-a, azucrinando-a, enlouquecendo-a, aaaaaa! Numa noite de insônia - ela só tinha noites de insônia nos últimos tempo - ela concluiu que deveria preencher este vazio, essa ausência de órgãos dentro de si. E partiu a procurar... Sem saber o que procurava, ela resolveu que ia provar de tudo até reconhecer o gosto daquela coisa necessária para a vida dela, mas que ela não fazia idéia do que se tratava. Começou abandonando o emprego. Faltou por 27 dia, mas não a demitiram. Então, faltou mais 25. Não adiantou. Ela pediu demissão! Era verão. Juntou todo o dinheiro que sobrara, pagou algumas contas e foi para a casa da praia de uma amiga. Foi um verão muito curtido. Muito bom. Ela até se sentiu completa em alguns instantes, em algumas conversas. Olhou para dentro do seu elefantesco corpo e não viu nada além de nada. Então, largou tudo novamente e rumou para outro lado. O lado do "amor". Arrumou um namorado. Boa pinta. Boa família. Bom comportamento. Bom papo. Bom cabelo. Péssimo sexo! Mas a Elefanta encarou numa boa e achou que podia conviver com esse detalhezinho que parecia não interferir. Não interferia. Ela se sentia inteira com seu amado... e uma penca de amantes - ah, pensem! Ela tinha que compensar, oras! Mas percebera outra vez que seu corpo ainda era leve demais. Sem recheio. Vazia...
Um dos seus casinhos lhe parecia bem interessante. Ela, de novo, largou o namorado e todas as coisas e ficou com este, que era Rapper e não era muito ciumento. Tudo numa boa. Tudo divertido. Mas, na real, o cara era um ignorante. Não conhecia Caio Fernando Abreu, não fazia idéia de quem era Josué Guimarães e não tinha aprendido a usar os plurais da Língua Portuguesa! Preciso dizer oque aconteceu? É. Fim!
Aí, ela se indignou e adentrou o mundo das farras. Tinha conhecido vários inferninhos com o "rapper" e começou a frequentá-los quase que diariamente. Na verdade, saía 'a rua só de noite. E nisso veio uma viagem longa. Porres. Porres. E mais porres. De todos os tipos de bebidas, misturas e sei lá mais o quê. Ela estava achando tudo muito engraçado. E aumentaram os porres, as misturas... um baseadinho - em nome dos velhos tempos! - uma "estrela", minha amiga, para relembrar, você foi boa nisso... Foi boa. Uma "estrela" num dia. Uma "estrela" com conhaque no outro. Depois uma "estrela" com uma "superman-rosa". E numa dessas noites de festa e a cabeça à mil, ela sentiu o maior mal-estar de toda a sua vida... quase o colapso. A Elefanta pode jurar pela sua enorme tromba e seus dentes de marfim que viu sua alma sair de seu corpo para lhe encarar e apresentar-lhe a morte.
Ela acordou de ressaca num dia chuvoso e decidiu parar com tudo. Tudo que estava podre em sua vida. Mas o mais importante ela não consegue resolver, nem as asas coloridas da borboleta, nem a formiga trabalhadeira, nem o seu amado gato Angorá, nem as pulgas, nem ninguém: ela ainda está vazia. E o que é pior. Tem a impressão que o espaço oco dentro de si está maior. Pois só a cabeça saiu ilesa da limpeza geral a que foi submetida. Todos os fragmentos do seu nada abrigaram-se na sua cabeça. Que não pára um segundo de trabalhar. Pensar. Pensar e pensar...
O que atormenta dia e noite a sua amiga borboleta é que o vazio - frio e calculista - esteja invadindo este seu enorme motor de idéias. Ela olhou fundo nos meus olhos, em lágrimas, e disse: "o que vai acontecer quando ela parar de pensar? Alguém se importará? Alguém além de mim?"
Isso me apavora também. Se eu pudesse salvá-la, respondi, se eu pudesse, faria! Recomendei alguns conselhos de meus companheiros de biblioteca. Dostoiévski, Myller e até Nelson Rodrigues - quem sabe dá um ânimo?! A borboleta agradeceu, mas disse que a Elefanta já conversara com todos estes. Aprumou-se e saiu voando desconsolada.
Olho para o céu com nuvens e lamento a minha pobreza de opções. Minha ignorância dinate dos fatos reais dos conflitos humanos. Tanta leitura para usar onde?
O que mais me assusta e agora não me deixa dormir é que as borboletas só duram 24 horas!

3 Esculachos:

At terça-feira, novembro 28, 2006 3:04:00 PM, Anonymous Anônimo said...

e tu continua sendo uma louca..
q eu amo!

 
At terça-feira, novembro 28, 2006 4:01:00 PM, Blogger Mary Zingler said...

Lindo texto...
Beijos

 
At terça-feira, novembro 28, 2006 11:25:00 PM, Anonymous Anônimo said...

Hola garota. Nunca fui nesse Jardim Botânico. Fica mais ou menos perto da casa da minha irmã... Mas não tive tempo. E nem sei se vou ir pra PoA tão cedo... Abs

 

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